| AS SEMELHANÇAS DAS ILHAS | A MORENINHA |
O domingo despontou e ele madrugou. E muito.
Queria acordar na ilha de Itamaracá aquela que dormia até alto dia. Mas todos
já haviam levantado e o aguardava, ela toda de branco voltou o rosto, ele
arregalou os olhos e ambos sentiram a ventura inundar-lhes o coração.
Oportuno, aceitou as condições da Pequena para as aulas de arte. Começaram após
o almoço. Trocaram sorrisos graciosamente enquanto ampliava. O lápis caiu aos
pés dela e ele foi pegá-lo e tocou-lhe em seus delicados pés.
Estremecida, os olhos em brasa se encontraram com os dele. E como não
aprendesse, ela deu-lhe um puxão de orelha e ele se acudiu pegando em suas
belas mãos, as acariciando. Novo fogo se acendeu. Não tinham mais nomes próprios,
mas chamavam-se de "meu aluno" e de "minha bela artista". E
ambos se despediram até domingo.
Raiou o belo dia, que seguiu a sete outros,
passados entre sonhos, saudades e esperanças. Ele trouxe seu dever de casa e se
esquecera da aposta. Esta já estava perdida. Ele encontrou o seu amor. Contudo
ela não acreditou ter ele pintado a tela; enciumada, rasgou-lhe o quadro. Porém
deu um dos seus. Entretanto não quis mais ensiná-lo e o convidou para conhecer
suas bonecas. O amor fez um concluinte de arquitetura brincar quase o dia
inteiro de bonecas. Passeando pelo jardim foram se descobrindo mais e mais em
suas paixões com declarações convincentes.
Ao retornar da ilha, encontrou-se com seu
pai que de tudo tinha conhecimento. Das suas loucuras e dos muitos pontos que
havia dado nas aulas. Chegado o próximo domingo seu pai não deixou que
cumprisse o compromisso de rever a amada na ilha de Itamaracá. E trancou o
rapaz apaixonado no quarto. Mas isto não apagou o amor. Já era tarde; amava
deveras! Nada comeu e fraco se fez nas forças do amor. Sucumbia de paixão. Não
melhorava, ia de mal a pior.
E na ilha de Itamaracá também padecia.
Faltara-lhe o tempero do amor. Não ceou e não dormiu. Entretanto, ela deu-lhe
esperança com a notícia da enfermidade e creu. Revelou-lhe que o seu amado
esteve doente e por isso não pode vir no domingo passado.
O novo domingo chegou. Lá estava ele a na praia,
toda bronzeada, aguardando esperançosa o sol começar a refletir seus raios
sobre o liso espelho do mar a fim de poder cantar sua balada e contemplar a
chegada de seu amor. Ele chegava à ilha com seu pai, a viu e correu ao encontro
da sua amada. Prazer imenso inundava a alma da garota.
Todos conheceram
o pai dele, almoçaram juntos e o pai e a mãe da garota conferenciaram e depois
chamaram os namorados para uma conversa. Ambos aguardaram a resposta deles, mas ele a desejou a pensá-la
no forte. Ele já impaciente correu ao local encantado a fim da receber. Então ele
a revelou-lhe o seu segredo como um a esmeralda e ela o seu com o um límpido
cristal. Eram conhecidos antigos, desde a infância. Agora achara sua mulher e
ela seu marido! Tanto o pai como a mãe presenciou tudo, e bem assim seus amigos
que chegaram até ao forte e deram maior viveza ao prazer que no forte reinava.
E o tempo que se passaria em explicações, passou-se em abraços. Ele perdeu
ganhando. Perdeu a moradia paterna e ganhou um romance (que nunca precisou
ser escrito por já existir: A Moreninha).
Filipe convidou seus colegas Leopoldo, Fabrício e Augusto para
irem à Ilha de Paquetá à patuscada do dia de Sant'Ana. Porem, Augusto
resistiu ao convite até saber das três moças que lá estariam. Daí, o Filipe
afirmou que o Augusto iria ficar apaixonado por uma das três moças; e como
relutasse, findaram por fazer uma apostar e quem a perdesse escreveria um
romance. Tudo testemunhado por Leopoldo e Fabrício.
Alguns dias, Augusto preocupara-se com a demora de Rafael, pois o
toque de recolher já dera o aviso e, sem que o soubesse, o Fabrício o segurara
até terminar sua carta para enviar-lha nas mãos. Nesta, revela-lhe de seus
apuros, por que se encontrava enamorado da moça Joana prima de Filipe que lhe
fez várias exigências as quais quebravam seu sistema clássico, o que não
queria, e, portanto, desejava romper sem saber como.
Na manhã de sábado eles chegaram à Ilha de Paquetá e foram
levados ao conhecimento geral do ambiente, da avó de Filipe e das suas primas e
irmã. Então travaram e trocaram conversas preliminares pouco agradáveis; porém
simpatizante ficou Augusto com a moça moreninha que saíra a correr da sala.
Sem demora, Fabrício tomou a braço a Augusto impaciente e o retirou para o
gabinete, como se fora tratar de negócios. Contudo este chamou a atenção de
Augusto por ter sido pouco condescendente com todos e este para com aquele.
Assim entraram em guerra.
O primeiro ataque estava marcado para o jantar. Às provocações
prosseguiu Augusto quando à mesa todos já se punha. Porém o quadro foi
revertido contra si mesmo, pois a moreninha desferiu-lhe com picante ironia
interrompida apenas para brindes e posteriores conversas afrontadoras entre Fabrício
e Augusto, deixando-o aquele debatendo-se em sua má posição. Contudo, com um
raciocínio elaborado deu o troco e, por ter-se revelado em sua paixão, não
bebeu o novo brinde. Entretanto, começou a mudar de idéia a respeito da
moreninha.
Passeava-se, todos, par a par, pelo jardim. Exceto Augusto, longe
do grupo, passeava só. Mas encontrou uma senhora piedosa para fazer-lhe
companhia, trocar opiniões e a quem podia revelar a história dos seus amores.
O marcante foi o da praia com um fato ocorrido na choupana de uma
família pobre que desejava Deus realizasse o desejo deles, presenteando a cada
um em retribuição da esmola com dois breves,
um verde e um branco. O verde cosido a uma esmeralda deu-o à menina, e o branco
ao Augusto. Saíram daquela casa, choraram juntos e bolaram o plano de como
esconder os símbolos de suas bênçãos futuras. Isto lhe fizera pensar que tal
amuleto tivesse alguma coisa de encantador, não o permitindo amar a mais ninguém.
Narra para d. Ana as suas rápidas e passageiras histórias de seus demais
romances; paixões tão-somente passageiras!
D. Carolina que brincava com as flores e tinha posse de uma rosa,
sentiu-se abordada a dá-la ao Fabrício, que recebeu-a ferindo-se, deixando a
Moreninha de cavaco. Assim, com o cair da tarde, enquanto conversava com o
Augusto, d. Carolina trouxe-lhe um café como perdão por ter-se agastado com
ela. Mas ambos ficaram matreiro fazendo cerimônias, até que se entornou sobre
o Augusto.
Então o Augusto voou com o Filipe à casa e este incitou àquele
a ir para o quarto das moças, gozasse de tais cômodos e lá se despisse até
que limpas pudesse vestir suas calça e camisa. Assim o fez. Em ceroulas e nu da
cintura para cima, ouvindo a matinada das moças enrolou suas roupas e
escondeu-se embaixo da cama. Ouviu toda a conversa. Após todas saírem se
vestiu e fugiu sem ser visto e com a carta que d. Gabriela havia deixado pela
pressa curiosa ao ouvir o grito de dor.
Morava
com a sra.. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula, mui estimada de d.
Carolina, a quem tinha servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na
criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moca.
Ora,
todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar, mas o nosso amigo
Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra a meia dúzia de
lindas garrafas, das quais se achava ternamente enamorado. Por infelicidade de
Paula, o alemão a lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a sentar-se
junto de si, mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber
à saúde de seu pai e sua mãe e sua família.
Não
havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Keblerc como já
estivesse um pouco impertinente, forçava Paula a virar copos cheios. Passado
algum tempo, quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se, pareceu-lhe
que estava uma nuvem diante dos olhos, não pode dar mais que dois passos,
cambaleou e, acreditando sentar-se numa cadeira, caiu com estrondo contra uma
porta. Logo confusão e movimento... Ninguém ousou pensar que Paula, sempre sóbria
e inimiga de espíritos, se tivesse deixado embriagar, e, por isso, correram
alguns escravos para o jardim, gritando que Paula acabava de ter um ataque. Então,
d. Carolina, vendo a infeliz mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, e deu
um grito com força.
Graças a este episódio o Augusto pode livrar-se da tão lamentável
condição. Correu, juntou-se aos outros três colegas no quarto da balbúrdia
para diagnosticar Paula conferenciando uns com os outros. Por fim d. Carolina o
escolheu para assistir a sua ama. Diagnosticou-a e saíram todos.
Todos se haviam já esquecido da Paula. Voltaram à algazarra e
à diversão. Nada mais de etiquetas e cerimônias. Contudo o Augusto mais e
mais acha interessante a Moreninha, conquanto vê seu jogo ir indo sem ordem e
pediu dispensa. Conversou um pouco com a dona da casa e foi dar assistência a
d. Paula. Na realidade ele fez pessoalmente o pedilúvio e convidou a Moreninha
para se retirar. Ambos saíram para Paula sossegar.
Ao romper do dia de Sant'Ana estavam todos na ilha de Paquetá
dormindo a sono solto depois da uma noitada cheia. A manhã do novo dia foi
assim passada, onde a Moreninha fez travessuras especiais ao coração de
Augusto e as pazes com o irmão por atrapalhar-lhe o jogo. E por causa da rosa
que se despetalou, d. Carolina foi condenada por um júri de divertimento
improvisado a dar um beijo em Augusto. À tarde voltou-se aos preparativos do
sarau.
No sarau a Moreninha arrebatou todas as vistas e atenções.
Principalmente do Augusto; desejava tirar-lhe para a dança... se apaixonou
pelas seis. Delas, quatro desenvolveram um plano para deixá-lo doido. Agora, às
quatro, o sarau já está terminando, os convidados vão retirando-se e outros já
dormem. Entretanto, o Augusto quando foi assoar o nariz achou dois bilhetes. Um
convidando-o para uma gruta na alvorada; gozação para as quatro. O outro
prevenindo-o da zombaria que lhe ocorreria se fosse à gruta. Mas não resistiu
e foi-se ao lugar encantado. As quatro moças já estavam o aguardando. Porém,
vieram buscar lã e saíram tosquiadas.
E já estava para pôr o pé fora da gruta quando foi-lhe pedido
que ficasse, pois havia chegado a sua vez. Era a Moreninha, sim, d. Carolina,
que já iniciara um imitar-lhe beber da fonte em invocação da fada...e
prosseguiu reproduzindo-lhe revelações dos fatos acontecidos e prognósticos
seus do passado, do presente e do futuro. Achara ele quem o tosquiasse,
portanto! A Moreninha conseguiu enganá-lo e desapareceu da gruta por uma difícil
saída.
As festas estão acabadas. Todos voltaram aos seus afazeres e
vida cotidiana. E há três dias o Augusto não consegue falar de outra pessoa
senão da Moreninha. De outro acontecimento a não ser da fuga encantada da
gruta. O coração do Augusto estava tomado de paixão. O amor lhe suspirava!
Perderia a aposta por ter-se vencido do amor? Se vencestes, também estás
vencida! O coração da d. Carolina também ama, mas a quem?!... Dúvidas e
certezas emergiram de Augusto.
A Moreninha deveras ama, ama o estudante Augusto. Saudades e
temor da inconstância do seu amado lhe faziam triste. Lá, bem às escondidas,
derramou-lhe uma lágrima, doce e de prazer. Sabia que no domingo ele passaria o
dia em seu aconchego familiar.
O domingo despontou e Augusto madrugou. E muito. Queria acordar
na ilha de Paquetá àquela que dormia até alto dia. Mas todos já havia
levantado e o aguardava, d. Carolina toda de branco voltou o rosto, Augusto
arregalou os olhos e ambos sentiram a ventura inundar-lhes o coração. Augusto,
oportuno, aceitou as condições da Moreninha para as aulas de bordado. Começaram
após o almoço. Trocaram sorrisos graciosamente enquanto marcava. O dedal caiu
aos pés de d. Carolina e Augusto foi pegá-lo e tocou-lhe em seus delicados pés.
Estremecida, os olhos em brasa se encontraram com os dele. E como não
aprendesse, ela deu-lhe um puxão de orelha e ele se acudiu pegando em suas
belas mãos, as acariciando. Novo fogo se acendeu. Não tinham mais nomes próprios,
mas chamavam-se de "meu aprendiz" e de "minha bela mestra".
E ambos se despediram até domingo.
Raiou o belo dia, que seguiu a sete outros, passados entre
sonhos, saudades e esperanças. Augusto trouxe seu dever de casa e se esquecera
da aposta. Esta já estava perdida. Ele encontrou o seu amor. Contudo ela não
acreditou ter ele bordado o lenço; enciumada, rasgou-lhe o lenço. Porém deu
um dos seus. Entretanto não quis mais ensiná-lo e o convidou para conhecer
suas bonecas. O amor fez um estudante do quinto ano de medicina brincar quase o
dia inteiro de bonecas. Passeando pelo jardim foram se descobrindo mais e mais
em suas paixões com declarações convincentes.
Ao retornar da ilha, Augusto encontrou-se com seu pai que de tudo
tinha conhecimento. Das suas loucuras e dos muitos pontos que havia dado nas
aulas. Chegado o próximo domingo seu pai não deixou que cumprisse o
compromisso de rever a amada na ilha de Paquetá. E trancou-lhe no quarto. Mas
isto não apagou o amor. Já era tarde; amava deveras! Nada comeu e fraco se fez
nas forças do amor. Sucumbia de paixão.
Na ilha de Paquetá d. Carolina também padecia. Faltava-lhe o
tempero do amor. Não ceou e não dormiu. Na sexta veio à d. Ana um recado. Então
sua avó deu a Moreninha esperança e esta creu. A boa avó livrou a Moreninha
dos seus tormentos dizendo que Augusto não mais havia vindo porque estivera
doente. Então os sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se
trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.
O novo domingo chegou e d. Carolina, aguardava esperançosa,
sobre o rochedo, o sol começar a refletir seus raios sobre o liso espelho do
mar a fim de cantar sua balada e vê o seu amor despontar. Lá chegou Augusto
com seu pai e correu ao encontro da sua amada. A alma da menina foi inundada de
prazer. Seu pai foi apresentado a d. Ana, cearam juntos e depois com foram
conferenciar a respeito dos namorados. Depois os chamou para entregá-los um ao
outro. Mas a Moreninha pediu para dar a reposta na gruta após meia hora.
Augusto não suportando o tempo passar, foi até o local encantado a fim de a recebê-la. Trocaram algumas palavras e d. Carolina se revelou a Augusto devolvendo-lhe o seu breve contendo a esmeralda com o camafeu. Quando o pai e a avó chegaram, bem como o Filipe, Fabrício e Leopoldo, presenciaram e deram mais viveza ao prazer que reinava na gruta. Eles já eram conhecidos antigos. Então Filipe entendeu que um mês se completava e que o Augusto perdeu ganhando. Sim, perdeu a aposta e ganhou um romance: A Moreninha.